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O EDIFÍCIO SEDE DA SOCIEDADE NACIONAL DE BELAS ARTES

 

       O edifício da Sociedade Nacional de Belas Artes situa-se em Lisboa, na Rua Barata Salgueiro n.º 36. Conta com uma área de implantação de 1.328,14 m2, na Freguesia do Coração de Jesus, integrando-se, portanto, na Zona Especial de Protecção Conjunta aos Imóveis Classificados da Avenida da Liberdade e Área Envolvente (1). Em todo o caso, apesar do edifício sede da Sociedade Nacional de Belas Artes não ser classificado pelo IPPAR, é considerado um imóvel de interesse municipal (2).

 


(Figura 1) – Localização da S.N.B.A

 

    A edificação data do início do séc. XX e mantém a sua identidade intacta face à proliferação de edifícios recentemente construídos em seu redor. Trata-se de um valioso exemplar do ecletismo arquitectónico português, cuja expressão neo-romântica, apesar de simplificada (3), faz referência aos “vários revivalismos” que pontuaram o panorama arquitectónico do século XIX. Este edifício, pelo carácter único que possui, é referenciado conjuntamente com as 140 obras de referência do século XX português na obra “Arquitectura do Século XX - Portugal”.
    Por outro lado, para além do valor arquitectónico indiscutível, as soluções construtivas que apresenta são pouco correntes. Essas testemunham, pela estrutura em perfis de ferro e alvenaria, os avanços que a arquitectura dos engenheiros aconselhava no final do século XIX.
    No capítulo funcional, este edifício é novamente um caso pouco comum em Lisboa, porque todas as actividades para as quais foi projectado continuam vivas e a realizar-se nos seus espaços.
    A Sede da Sociedade Nacional de Belas Artes, por “manter as suas características de origem, função e proprietário para que foi erigida” (4), constitui um património que não é indissociável das actividades que nela se realizam.

 


(Figura 2) – S.N.B.A em Maio de 1913


(Figura 3) – S.N.B.A em Maio de 2005

 

    No âmbito da expansão de Lisboa a Norte através da abertura da Avenida da Liberdade, foi posteriormente desenvolvido o Plano das Avenidas Novas na segunda metade do século XIX ,da autoria do engenheiro Ressano Garcia. Este projecto surge com a intenção progressista de criar um novo eixo de desenvolvimento para Norte integrando a ideia do Boulevard parisiense.

    A conclusão do plano deu-se em 1888, tendo sido implantado para a envolvente da metade Norte da Avenida da Liberdade, Avenida Fontes Pereira de Melo e Avenida da República. O plano estrutura-se através de uma malha ortogonal que se desenvolve em torno de um eixo gerador, mantendo e absorvendo os eixos viários já existentes. O edifício em estudo foi implantado num quarteirão ortogonal e perpendicular à Avenida da Liberdade num bairro então eminentemente residencial.

 

 
(Figura 4) – Plano de expansão de Lisboa 1879-1888


    O Palácio da Rua Barata Salgueiro, Sede da Sociedade Nacional de Belas-Artes, é um edifício com dois corpos funcionais principais que se articulam por intermédio de um terceiro, perpendicular aos outros, onde funciona todo o conjunto de átrios, comunicações verticais e horizontais.

    A sua configuração volumétrica advém do lote onde se insere ocupando toda a largura disponível para o desenvolvimento do Salão Nobre. O seu alçado principal confina com a Rua Barata Salgueiro que apresenta um declive médio de 6,5% com orientação Nordeste/Sudoeste.

 


(Figura 5) – Fachada principal da S.N.B.A.

 

    O edifício é um exemplo do ecletismo arquitectónico preconizado por grande parte dos arquitectos da época e neste caso particular por Álvaro Machado, seu autor. Foi construído no início do século XX com uma estrutura mista de ferro, madeira e alvenaria de pedra. O edifício é testemunho de uma técnica construtiva que acusa a influência que a arquitectura dos engenheiros, muito divulgada nos finais do século XIX, teve em alguns dos arquitectos portugueses.

    Na época em que foi construído, o Salão era dotado de um sistema de aquecimento constituído por uma caldeira a gasóleo, e uma canalização de cobre sob o pavimento onde circulava a água quente. O ar quente produzido pelo “pavimento radiante” era renovado por intermédio de uma conduta de extracção a qual estava associada um ventilador de dimensões avultadas. As saídas de ar quente deste sistema de aquecimento estavam perfeitamente integradas no sistema de carpintaria e serralharia, estilo “arquitectura do ferro”, que constitui o tecto do salão. Para além de incorporar as grelhas de ventilação, esta “cobertura do Salão Nobre”, constituída por elementos de madeira, perfis de ferro e vidro, tinha como objectivo a chegada de luz natural ao recinto. Essa luz natural, que iluminava o recinto, atravessava os elementos translúcidos da cobertura e os vidros do tecto do salão.
A composição de três corpos, concretizada pela estrutura de paredes do edifício, desenvolve-se em três pisos: o piso do rés-do-chão está instalado nos três corpos; o primeiro andar limita-se ao corpo da entrada principal e a cave ocupa parcialmente a área dos dois corpos principais.

 

Excerto de Memória Descritiva do Projecto de Execução
Obras de Remodelação da Sociedade Nacional de Belas Artes

Autoria do texto:
Arquitecto Nuno Magalhães
Arquitecto David Dionísio

 


(1) - ZONA ESPECIAL DE PROTECÇÃO CONJUNTA AOS IMÓVEIS CLASSIFICADOS DA AVENIDA DA LIBERDADE E ÁREA ENVOLVENTE” Portaria n.º 529/96, Diário da Republica nº 288 de 1 Outubro

(2) - sede da Sociedade Nacional de Belas Artes integra o Inventário Municipal do Património do P.D.M. de Lisboa

(3) - sobriedade decorativa e a linguagem simplificada que caracterizam o edifício devem-se também ao constrangimento orçamental a que a empreitada foi sujeita para que se pudesse levar a cabo.

(4) - IPPAR - Informação N.º 1199/ DRL-DS/2003, 11 de Agosto de 2003] - Processo DRL n.º 2000/23-6 (345)