Exposição

João Abel Manta: Retrospetiva de Pintura

17 Jan 2023 -
 18 Fev 2023

A exposição acompanha o percurso intenso de João Abel Manta que se inicia com a expressão Neo-Figurativa dos anos 60 e 70, através de grafismos planificados e composição assente na justaposição na página, com referencias na Arte Pop, a que se somam apontamentos letristas.

Após decidir encerrar a sua atividade como cartoonista, cerca de 1980, o autor dedica-se à pintura, em exclusivo, como que começando de novo, mergulhando na paisagem, e tomando como referência Gouveia, terra natal do seu pai, o pintor Abel Manta. Daqui prossegue para a paisagem marítima, ou urbana, nas zonas de Lisboa, Porto, e outras cidades, sempre de Portugal.

O interesse pelas figuras da cultura está presente desde sempre, e também na extensa galeria retratos, onde escritores, pintores, filósofos, atores, músicos, são convocados com a proximidade intensa e o companheirismo ameno que se conhecia dos seus desenhos e cartoons.

Já no lado esquerdo da exposição estão presentes os últimos trabalhos de João Abel Manta, que evocam tanto a mitologia revisitada, como a biografia familiar, no contexto dos referentes profundos das relações humanas: a sexualidade, as idades, os livros, as viagens. Identifica-se o artista em auto-representação, ora como criança, de três ou quatro anos, ora como pintor, adulto e envelhecido, assim como também se identifica a sua companheira de vida, entre outros referentes da sua biografia.

o artista
João Abel Manta

João Abel Manta nasce a 29 de janeiro de 1928 em Lisboa, filho dos pintores Clementina Carneiro de Moura e Abel Manta.

O contexto familiar é próximo dos ideais republicanos: são amigos da família Aquilino Ribeiro, Manuel Mendes, Bernardo Marques, Francisco Keil do Amaral, Dórdio Gomes, Eduardo Viana, Almada Negreiros, Gualdino Gomes, Fernando Lopes Graça, Bento Jesus Caraça, Pulido Valente.

Ainda criança, dos 7 aos 10 anos, é levado em longas viagens de Verão a Itália, França, Bélgica, Inglaterra, Suíça, contornando por barco a Espanha mergulhada em guerra civil. O jovem João Abel está também em Paris em 1944, pouco depois de libertação nazi.

Na Escola de Belas-Artes de Lisboa, em 1945, trava conhecimento com os companheiros que marcarão a sua vida:  Jorge Vieira, Rolando Sá Nogueira, José Dias Coelho, Francisco Castro Rodrigues, a que se juntam Mário Dionísio, Ernesto de Sousa, Nuno Craveiro Lopes, Lima de Freitas, Carlos Calvet, Sena da Silva, Lagoa Henriques, Eduardo Anahory, Fernando de Azevedo, Joaquim Correia.

Faz parte do grupo de estudantes que assume a renovação da SNBA, promovendo as novas exposições anuais que incluem artes plásticas, design e arquitetura, sem júri, desde que se recuse expor nos Salões do SNI do Estado Novo. São as famosas Exposições Gerais de Artes Plásticas, que João Abel integra, de 1947 a 1953.

Adere ao MUD, e ao primeiro cineclube, de Ernesto de Sousa, e acolhe também no seu quarto independente as reuniões clandestinas: atividades que lhe valem a prisão em Caxias, com dezoito anos, no contexto da campanha de Norton de Matos. O regime endurece e, em 1952, 81 estudantes das Belas Artes têm um processo disciplinar por ativismo, ano em que a SNBA é também mandada encerrar. O seu amigo José Dias Coelho é expulso da Escola de Belas Artes e impedido de lecionar para sempre nas escolas do Estado, assim como a sua companheira, Margarida Tengarrinha.

Já arquiteto, integra o gabinete de Alberto Pessoa e Hernâni Gandra, onde vai projetar os 5 blocos habitacionais da Avenida Infante Santo, assim como a Associação Académica de Coimbra, sendo também autor de painéis de azulejo.

Por esta altura começa a colaborar com a imprensa, como ilustrador e cartoonista, salientando-se a revista Almanaque, com Sebastião Rodrigues e José Cardoso Pires. Nos anos 60 abandona a arquitetura para se dedicar ao cartoonismo, à ilustração de livros, à pintura e à cenografia, entre outras atividades artísticas.

Terá ajudado por vezes José Dias Coelho, na clandestinidade, a evadir-se pelas ruas de Lisboa, no seu Volkswagen, perseguido pela PIDE. O seu amigo será, porém, abatido, a 19 dezembro de 1961, na rua, por três agentes da PIDE, com dois tiros, um pelas costas, e o outro estando já caído no chão.

São deste período as séries mais sombrias da obra de João Abel Manta: “os Missionários,” “um caso para o Santo Ofício, e a “Situação Shakespeariana.”

Em 1969, os cartoons no Diário de Lisboa, na página “Mesa redonda,” tornar-se-ão icónicos, assim como os seus “Diálogos confidenciais” no seu suplemento literário, a que se junta o impacto do livro que ilustra para José Cardoso Pires, “O Dinossauro Excelentíssimo,” – êxito que a censura não consegue travar. O cartoon “Festival”, publicado no suplemento do Diário de Lisboa “A Mosca,” de Stau Monteiro, vai valer-lhe um julgamento e a proibição de voltar a publicar em jornais.

Com a revolução do 25 de abril retoma o cartoonismo com alguns dos mais memoráveis sendo publicados no Diário de Notícias, no Diário de Lisboa, n’O Jornal,’ – onde sobressai o famoso vira casacas “sem mãos a medir,” ou “Portugal: um problema difícil.” O MFA conta também com os seus cartazes, na campanha de dinamização cultural, em 1975, formando um imaginário da época. O lançamento do Jornal de Letras, de José Carlos de Vasconcelos, em 1981, reunirá os seus últimos e intensos trabalhos gráficos, para um ano depois se dedicar à pintura, paixão para a vida.

É um novo entusiasmo pelo regresso à paisagem, pois que Portugal continuará sempre a ser o seu “problema difícil.”

Eventos

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Com o Curador João Paulo Queiroz
Todos os sábados, às 16h00

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