Exposição

Reserva para o Futuro – Finalistas Pintura

28 Jul 2022 -
 27 Ago 2022

Foram meus alunos – os meus últimos alunos 

Conheci-os em setembro de 2019 nas aulas de apresentação da cadeira nuclear de projeto artístico do 3º ano da licenciatura em Pintura. Tinham quase todos 20 anos de idade ou um pouco mais. Salvo raras exceções, em termos etários podiam ser meus netos.

Foi um início de ano como tantos outros. Falámos das condições de trabalho nos ateliês de pintura, da vivência individual e coletiva nos anos de faculdade, dos paradoxos do processo criativo… falámos da vida, da arte, da paixão que nos une.

Alguns dias mais tarde a atenção passou a centrar-se em cada aluno individualmente. Sentados frente a frente, numa relação de grande proximidade, demos início a um longo processo de conhecimento mútuo.

Fiz perguntas, muitas perguntas. Desafiei-os a pensar, desafiei-os a fazer. Refletimos juntos sobre obras e intenções. Falámos de tudo, livremente, desde as grandes opções dos seus projetos pessoais e de obras de autores de referência até questões de ordem formal e mesmo técnica.

Os ateliês e corredores encheram-se de trabalhos de toda a espécie, de objetos e imagens. Um frenesim criativo tomou conta dos espaços disponíveis, que passámos a percorrer com o cuidado de uma loja de porcelanas.

Depois, a meio do ano letivo, a pandemia mandou-nos a todos para casa. No dia 11 de março as aulas presenciais foram interrompidas e a faculdade fechou as portas a alunos e professores. A desilusão foi tremenda. Fisicamente longe dos alunos e das suas obras, os meus derradeiros meses como professor da FBAUL pareciam condenados.

Respirei fundo. Recompus-me. Marquei tutoriais online com os alunos. A partir desse dia estive praticamente sempre em casa e toda a minha vida passou a entrosar-se com a atividade letiva.

O que estava previsto deixou de estar. Tivemos que ir reinventando tudo passo a passo. Tinha a meu cargo 56 alunos. Um número desproporcionado. Fui seu professor todos os dias, úteis e inúteis, a todas as horas, até estar resolvida a atribuição das classificações finais. Acompanhei-os ininterruptamente durante quatro meses.

Desde o arranque foi fixado um padrão que iria durar até ao fim. No dia certo, à hora certa, ao minuto certo, o Skype anunciava uma nova chamada. Seguindo as minhas instruções, eram eles quem fazia a ligação. Ainda agora me surpreendo com a pontualidade milimétrica de quase todos. E fiquei irremediavelmente agarrado. Os tutoriais invadiram a minha vida como um tsunami. Os alunos e as suas obras passaram a estar presentes na minha mente desde a véspera ou antevéspera de cada conversa, numa cadeia imparável.

Com a desmaterialização do local de encontro, a barreira institucional que nos separava escondeu-se da vista. Eles estavam quase sempre em casa, na sala, na varanda ou mesmo na intimidade do seu quarto. Eu, no meio dos meus livros, dos meus trabalhos, dos meus pensamentos. Juntávamo-nos num espaço intermédio, sem coordenadas geográficas. Um espaço só nosso e de mais ninguém.  Foi um inesquecível tempo de partilha. (1)

Os jovens que agora apresentam os seus trabalhos nesta empolgante exposição de finalistas foram meus alunos – foram os meus últimos alunos.

(1)Todos os alunos que tive a fortuna de acompanhar no ano letivo de 2019-2020, todos sem exceção, contribuíram para tornar este episódio final num dos momentos mais empolgantes da minha vida de professor. A todos um enorme abraço. Um obrigado sem fim.

 

Manuel Botelho

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