É com pesar que a Sociedade Nacional de Belas-Artes lamenta o falecimento da artista joalheira Maria da Conceição de Moura Borges, conhecida como Kukas.
Figura ímpar da Joalharia de Autor em Portugal, Kukas foi uma das grandes pioneiras da renovação da joalharia contemporânea nacional. A sua obra, moderna, original e
profundamente inovadora, afastou-se dos cânones tradicionais da joalharia, afirmando uma linguagem assente na primazia estética das formas.
Nascida em 1928 na Beira Baixa, onde cresceu até mudar-se para Lisboa para concluir os estudos liceais. No final da década de 50, estuda Decoração de Interiores na École Supérieure
des Arts Modernes, em Paris, onde o contacto com o a joalharia escandinava foi determinante para a sua aproximação à Joalharia de Autor.
De regresso a Portugal, instala atelier na própria casa, na Colina do Castelo de São Jorge, e realiza a primeira exposição individual em 1963, na Galeria Diário de Notícias. A par do
joalheiro Alberto Gordillo, Kukas afirmou-se como uma das renovadoras da joalharia nacional, conciliando uma concepção autoral e moderna do design com a estreita colaboração com
mestres-ourives.
Ao longo das décadas de 1970 e 1990, abriu várias lojas em Lisboa, que se tornaram referências no panorama de design e das artes plásticas em Portugal, alcançando públicos
amplos e diversificados, bem como coleccionadores e admiradores fiéis. Concebeu peças para Amália Rodrigues, Eunice Muñoz ou Maria Helena Vieira da Silva. Nos anos 1990, passa
também a criar e produzir objectos do quotidiano em aço, como jarros, manteigueiras e floreiras.
Ao longo de seis décadas de intensa actividade, desenvolveu uma obra singular, marcada pela exploração de formas orgânicas e geométricas, pela inclusão de materiais considerados menos
nobres e pela criação de peças únicas, arrojadas e personalizadas, com inspirações que cruzam o mundo natural, a arquitectura e a paixão pela pintura.
O trabalho de Kukas foi amplamente exposto e reconhecido em Portugal e no estrangeiro, destacando-se participações na Bienal de Arte de São Paulo, no Museu Nacional de Belas Artes
do Rio de Janeiro (1977) e na Europália (1991), bem como as exposições individuais Kukas, Jóias e Objectos, na Fundação Calouste Gulbenkian (1982), a antológica Uma Nuvem Que
Desaba em Chuva, no MUDE (2012) e Kukas. Homenagem à Geometria, no Museu Nacional de Arte Contemporânea (2023).
A Sociedade Nacional de Belas-Artes recorda, com particular estima, a presença regular do atelier de Kukas nas várias edições da Feira de Outono da Associação Portuguesa de Antiquários, realizadas no Salão.
À família, amigos e a todos os que com ela partilharam o seu percurso, a Sociedade Nacional de Belas-Artes apresenta as mais sentidas condolências, homenageando uma criadora maior da arte e do design portugueses.
Créditos da Imagem:
Kukas, retratada pelo fotógrafo Kenton Tatcher, em fotografia apresentada no Salão da SNBA, em 2025.
Referência bibliográfica:
Filipe, Cristina. "Kukas. Jóias, Objectos e Coleccionadores. Uma Retrospectiva / Kukas.
Jewellery, Objects and Collectors. A Retrospective". In Kukas: Uma nuvem que desaba em chuva | Kukas: A cloud that breaks into rain, 17-131. Lisbon, Portugal: MUDE – Museu do Design e da Moda, 2012.