José Luís Tinoco (Leiria, 1932 – Lisboa, 2026)
A Sociedade Nacional de Belas-Artes apresenta as mais sentidas condolências à família e amigos pelo falecimento do arquiteto, artista plástico e músico José Luís Tinoco, sócio distinguido desta associação.
Nascido a 27 de dezembro de 1937 em Leiria, cresceu num ambiente cultural que incentivou o cultivo das artes e da música: a mãe era pianista e concertista e o pai reitor do liceu e diretor do Círculo de Cultura Musical. Desde cedo revelou uma forte inclinação para a música.
Formado em Arquitetura pela Escola Superior de Belas-Artes do Porto, curso concluído em Lisboa, deixou uma obra de estilo modernista, tendo sido nomeado para o Prémio Valmor por uma moradia no bairro do Restelo. Com o tempo, viria a privilegiar a música e a pintura, áreas que lhe permitiam maior autonomia criativa. Junto do grande público, ficou conhecido pelas canções compostas para o Festival da Canção, entre as quais “Madrugada”, interpretada por Duarte Mendes, música vencedora em 1975; entre outras canções que ficaram na memória popular da década de 70, como “No Teu
Poema”. A escrita de canções seria apenas uma pequena parte do seu vasto percurso como compositor e multi-instrumentista, com presença relevante na cena do jazz português. Tocou com a Orquestra Académica de Coimbra, no Hot Clube de Portugal, e com músicos com Mário Laginha e Bernardo Sassetti. Entre diversos projetos, fundou o grupo de rock progressivo Saga, e explorou pontes entre o jazz e outros géneros musicais.
Criador excecional e multidisciplinar, José Luís Tinoco trabalhou em ilustração, cartoon, fotoanimação, cenografia para teatro, ópera e bailado, design gráfico e artes plásticas. Desenhou capas de livros de Alfred Jarry e de José Rodrigues Miguéis, assinou emissões filatélicas dos CTT e concebeu espaços de arquitetura e mobiliário.
Na pintura, procurou renovar-se continuamente, revelando uma profunda erudição sobre a História da Arte. A sua obra inicial, nas décadas de 1960 e 1970, evidencia influências neorrealistas, mas progressivamente abandona a figuração. Em 1986 apresentou uma retrospetiva do período abstrato na Fundação Calouste Gulbenkian. Em 1994 publicou o catálogo “Diálogos”, com textos de António Lobo Antunes. No final da década de 90, retoma a figura humana, interessando-se pelo questionamento do quotidiano, da banalidade e da vulnerabilidade do ser humano, em séries como “Crucifixações” (exposição Palácio Galveias, 1998) e “Figurações” (SNBA, 2003).
Em 2015, foi distinguido com o Prémio de Consagração de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores. Nesse mesmo ano, o Teatro São Luiz dedicou-lhe o espetáculo “Os lados do mar – José Luís Tinoco”, dirigido por Laurent Filipe.
Em 2024, a Sociedade Nacional de Belas-Artes teve o privilégio de acolher a última exposição de José Luís Tinoco, “Outra maneira de fazer”, onde apresentou desenhos inéditos reveladores de um olhar artístico sensível, atento e inconformado.
Personalidade multifacetada, um humanista e artista de rara integridade, José Luís Tinoco será recordado pela marca profunda que deixa na cultura portuguesa e pelo entusiasmo inspirador com que abraçou a arte e a vida.
Informamos os nossos prezados sócios de que o velório de José Luís Tinoco se realiza no dia 16 de abril (sexta-feira), na Sociedade Portuguesa de Autores – Sala Galeria Carlos Paredes, entre as 17h e as 23h. A cerimónia de cremação terá lugar no dia seguinte, sábado, às 17h, no Cemitério dos Olivais.
Fotografia: José Luís Tinoco à entrada da SNBA, em 2024, por ocasião da inauguração da sua exposição Outra maneira de fazer (Créditos: Luís Tinoco, página de Facebook)