Nota de Pesar – João Abel Manta (1928-2026)

Nota de Pesar – João Abel Manta (1928-2026)

Faleceu hoje aos 98 anos, o arquiteto, pintor e cartoonista João Abel Manta, na sua casa, no bairro Alto, em Lisboa.

Era filho dos pintores Abel Manta e Clementina Carneiro de Moura. Fez o curso de arquitetura da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, que terminou em 1951 e onde travou amizade com Sá Nogueira, José Dias Coelho, Jorge Vieira, entre outros.

Na arquitetura trabalha em associação com Alberto Pessoa, mas abandona progressivamente a atividade ao longo dos anos de 1960, expandindo a atividade por uma multiplicidade de áreas, das artes plásticas à cenografia, destacando-se em particular como cartoonista na década seguinte.

Foi responsável, com Alberto Pessoa e Hernâni Gandra, pelos projectos do Conjunto Habitacional na Avenida Infante Santo, Lisboa (com o qual ganhou o Prémio Municipal de Arquitectura em 1957), e da Associação Académica de Coimbra (1955-59).

Como artista plástico, tem obras nas áreas da pintura, desenho (ilustração, cartoon), artes gráficas, cerâmica, tapeçaria e mosaico. Fez selos e cartazes, ilustrou livros, entre os quais ‘A cartilha do marialva,’ de José Cardoso Pires. Foi o autor das tapeçarias do Salão Nobre da sede da Fundação Calouste Gunbenkian (c. 1969). Fez os cenários para A Relíquia, de Eça de Queiroz (1970) e O Processo, de Kafka (1970). No contexto da arte pública destacam-se o pavimento na Praça dos Restauradores, Lisboa, e o painel de azulejos na Avenida Calouste Gulbenkian, Lisboa (concebido em 1970 e aplicado em 1982).

Em 1961 venceu o Prémio de Desenho na II Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian com O Ornitóptero. A área em que se distinguiu de forma mais assinalável foi a do cartoon.

Obteve vários prémios nacionais e estrangeiros; participou em inúmeras exposições coletivas, em Portugal e no estrangeiro; realizou múltiplas mostras individuais, entre as quais: Galeria Interior, Lisboa, 1971; Institute of Contemporary Arts (ICA), Londres, 1976; Museu Rafael Bordalo Pinheiro, Lisboa, 1992; Palácio Galveias, Lisboa, 2009; SNBA, em 2022 e 2025.

Os seus trabalhos foram publicados em jornais como o Diário de Lisboa, Diário de Notícias, e O Jornal, abordando de forma crítica e profundamente irónica a realidade portuguesa; a partir de 1981 publica novos trabalhos no Jornal de Letras, mas a sua atividade como cartoonista tornar-se-á mais esporádica.

Proibido de publicar os seus desenhos por decisão de tribunal na sequência de uma polémica com um cartoon seu (“Festival”), será só após a queda da ditadura que retomará a sua intervenção no cartoon. Poderá salientar-se, entre tantos, “Um problema difícil”, de 1975, onde um grupo de notáveis – de Marx e Lenin a Gandhi e Sartre –, se interrogam perante um pequeno mapa de Portugal.

A partir de 1981 dedica-se quase exclusivamente à pintura, num trabalho intimista que contrasta com o carácter de intervenção político-social dos seus cartoons.

A 3 de Setembro de 1979 foi feito Comendador da Ordem de Sant’Iago da Espada.

A 25 de Abril de 2004, foi agraciado com o grau de Comendador da Ordem da Liberdade.

Era associado e amigo da SNBA, onde expôs pela última vez em 2025.

Crédito de imagem: Gonçalo Rosa da Silva/Visão

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